Robótica paraense conquista a China: como estudantes de Ananindeua transformaram tecnologia em solução para a Amazônia

Martina Delviero
Martina Delviero
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Robótica paraense conquista a China: como estudantes de Ananindeua transformaram tecnologia em solução para a Amazônia

Equipe venceu competição internacional com projeto que une impressão 3D, tecnologia NFC, acessibilidade e preservação do patrimônio amazônico.

Uma equipe de estudantes de Ananindeua colocou o Pará no centro do debate internacional sobre educação tecnológica ao conquistar, em Pequim, o principal prêmio do FIRST LEGO League Asia Open Championship 2026. A Born to Fight, formada por jovens da Escola SESI Ananindeua, recebeu o Champions Award após competir com 160 equipes de 30 países e regiões. O resultado, anunciado em 16 de agosto, foi inédito para o estado e ocorreu justamente na primeira participação de uma equipe paraense em um mundial da modalidade. (Agencia de Notícias CNI)

Mas a conquista chama atenção por um motivo que vai além da competição entre robôs. O projeto apresentado pelos estudantes nasceu de um problema amazônico: como permitir que mais pessoas conheçam peças arqueológicas sem colocar os objetos originais em risco? A resposta combina impressão 3D e tecnologia NFC para criar réplicas interativas, incluindo uma possibilidade de acesso por pessoas com deficiência visual. Para Belém e sua região metropolitana, o caso também levanta uma questão importante: o que a educação tecnológica pode produzir quando ciência, cultura amazônica e criatividade são trabalhadas juntas desde a escola?

Como funciona o projeto criado por estudantes de Ananindeua

O projeto que levou a equipe paraense ao topo da competição foi batizado de Relicário Amazônia. A proposta foi desenvolvida dentro do tema “Unearthed”, adotado na temporada 2025/2026 da FIRST LEGO League e relacionado à arqueologia, à exploração do passado e à preservação do patrimônio. Em vez de tratar a tecnologia apenas como programação de robôs, os estudantes partiram de uma questão concreta relacionada à preservação e ao acesso à memória histórica. (Agencia de Notícias CNI)

A solução utiliza impressão 3D para reproduzir objetos arqueológicos, criando peças que podem ser manipuladas sem exigir contato direto com os artefatos originais. Isso é relevante porque peças históricas precisam ser preservadas e, dependendo de sua fragilidade, o contato constante com o público pode representar riscos. Ao trabalhar com réplicas, museus e espaços educativos podem ampliar as possibilidades de interação sem necessariamente submeter os objetos originais ao mesmo nível de manuseio.

O segundo componente é a tecnologia NFC, sigla para comunicação por aproximação. É uma tecnologia que muitas pessoas já encontram no cotidiano em pagamentos por aproximação, cartões e dispositivos móveis, mas que os estudantes aplicaram a outro contexto. Incorporada às réplicas, ela pode permitir que o visitante utilize um aparelho compatível para acessar informações sobre a peça, sua origem, contexto histórico e importância cultural. (FIEPA)

A proposta também possui uma dimensão de acessibilidade. Como a réplica pode ser tocada, pessoas com deficiência visual podem explorar características físicas do objeto que seriam difíceis de compreender apenas por meio de fotografias ou descrições. A tecnologia, nesse caso, não aparece como um fim em si mesma, mas como ferramenta para aproximar diferentes públicos do patrimônio cultural amazônico.

O que a vitória revela sobre a educação tecnológica no Pará

A trajetória da Born to Fight mostra que uma competição de robótica educacional exige muito mais do que montar e programar uma máquina. Na FIRST LEGO League, as equipes são avaliadas em diferentes dimensões, incluindo o desempenho do robô, o projeto de inovação, o design e aspectos ligados à colaboração e ao trabalho em equipe. Os estudantes precisam pesquisar, formular hipóteses, desenvolver soluções, testar ideias, corrigir falhas e apresentar suas decisões diante dos avaliadores. (FIEPA)

Esse modelo ajuda a explicar por que a notícia interessa também a quem não acompanha campeonatos de robótica. As competências trabalhadas durante esse processo são próximas das exigidas em áreas como engenharia, programação, ciência de dados, design, pesquisa e desenvolvimento de produtos. Além disso, a experiência envolve comunicação, organização e capacidade de defender uma ideia, habilidades que não dependem exclusivamente de uma carreira tecnológica.

A equipe chegou à competição internacional depois de se destacar na etapa nacional, realizada em março, em São Paulo. Na ocasião, os estudantes conquistaram o Prêmio Niède Guidon, destinado ao melhor Projeto de Inovação do Brasil, além do primeiro lugar em Design do Robô. Esses resultados garantiram a classificação para a disputa em Pequim. (Agencia de Notícias CNI)

O resultado também mostra a importância de criar oportunidades para estudantes amazônidas participarem de experiências científicas fora de seus territórios. A distância geográfica costuma ser uma barreira adicional para jovens de escolas da região, principalmente quando atividades, competições e eventos de grande porte estão concentrados em outras partes do país ou no exterior. Nesse caso, uma equipe formada na Região Metropolitana de Belém conseguiu transformar uma ideia construída localmente em uma solução apresentada diante de participantes de dezenas de países.

Para o Pará, esse tipo de experiência pode ajudar a ampliar a percepção sobre o que significa produzir tecnologia na Amazônia. A região frequentemente aparece no debate nacional associada apenas a recursos naturais, problemas ambientais ou desafios de infraestrutura, mas também abriga pesquisadores, estudantes, empreendedores e instituições capazes de desenvolver soluções tecnológicas conectadas às características locais.

Por que a tecnologia pode ajudar a preservar a memória amazônica

O aspecto mais interessante do Relicário Amazônia está justamente na combinação entre inovação e patrimônio. Em vez de reproduzir uma tecnologia criada para um mercado distante e tentar adaptá-la posteriormente à realidade regional, os estudantes partiram de uma questão relacionada à própria Amazônia. Isso abre espaço para pensar em outras aplicações semelhantes em museus, escolas, centros culturais e iniciativas de turismo científico e histórico no Pará.

Belém possui um patrimônio cultural e histórico que pode se beneficiar de novas formas de interação com o público. Espaços ligados à história da cidade, instituições de pesquisa, museus e iniciativas de turismo podem utilizar recursos digitais para contextualizar objetos e narrativas, especialmente quando a tecnologia ajuda a tornar a experiência mais acessível. O mesmo raciocínio pode alcançar comunidades do interior, onde o acesso a determinados equipamentos culturais e científicos é mais limitado.

A combinação de impressão 3D e NFC também permite imaginar modelos educativos nos quais o visitante deixa de ser apenas espectador. Uma réplica pode ser utilizada em uma atividade escolar, uma exposição ou uma oficina, enquanto o recurso digital associado apresenta informações complementares. Isso cria uma ponte entre educação, cultura e tecnologia e pode despertar o interesse de estudantes por áreas científicas a partir de elementos que fazem parte da própria identidade amazônica.

O caso ainda ganha importância em um momento em que a formação tecnológica se torna cada vez mais estratégica para o mercado de trabalho. O Brasil ampliou investimentos e programas voltados à inteligência artificial, computação e inovação, enquanto empresas procuram profissionais capazes de combinar conhecimentos técnicos com criatividade e resolução de problemas. Uma experiência como a vivida pelos estudantes paraenses não garante automaticamente uma carreira, mas pode funcionar como porta de entrada para esse universo.

Para Belém e o Pará, a principal mensagem da conquista talvez esteja justamente aí. Tecnologia não precisa significar apenas grandes laboratórios, inteligência artificial ou equipamentos sofisticados; ela também pode começar em uma escola, diante de um problema concreto, e ganhar forma por meio de pesquisa, tentativa e erro. A vitória da Born to Fight em Pequim mostra que ideias desenvolvidas por jovens da Região Metropolitana de Belém podem dialogar com desafios globais sem perder a conexão com a história e a identidade amazônicas.

A conquista internacional da equipe de Ananindeua transforma uma competição de robótica em uma notícia sobre educação, cultura e oportunidades. Os estudantes levaram para a China uma proposta construída a partir da preservação do patrimônio e voltaram com o principal reconhecimento do torneio, em uma trajetória inédita para o Pará. (Agencia de Notícias CNI)

O próximo desafio é fazer com que experiências desse tipo não sejam exceção. Quanto maior for o acesso de estudantes paraenses a laboratórios, programação, robótica, ciência e projetos de inovação, maiores serão as possibilidades de transformar problemas amazônicos em soluções desenvolvidas na própria região. Para quem vive em Belém e no Pará, a história deixa uma pergunta importante: quantas outras ideias podem surgir quando jovens amazônidas encontram espaço, orientação e recursos para testar aquilo que imaginam?

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