Encontro no IFPA coloca formação, mercado de trabalho, setores econômicos e riscos da inteligência artificial no centro da discussão paraense.
A inteligência artificial começa a deixar de ser apenas uma ferramenta associada às grandes empresas de tecnologia e passa a ocupar espaço cada vez maior na formação profissional e na economia do Pará. Em Belém, o Instituto Federal do Pará (IFPA) anunciou para 17 de setembro um encontro dedicado justamente a discutir como a IA pode interferir na formação, nas profissões e nos setores econômicos do estado. O evento será realizado no Campus Belém e terá como tema “Inteligência Artificial – da formação às práticas profissionais, o impacto no Estado do Pará”. Segundo o IFPA, responsável pela programação, serão discutidas aplicações da tecnologia, oportunidades, riscos e aspectos legais.
A iniciativa acontece em um momento em que o Brasil amplia políticas para desenvolver e utilizar inteligência artificial, enquanto empresas procuram profissionais capazes de trabalhar com novas ferramentas. Para quem vive em Belém, a dúvida prática é menos sobre “o que é IA” e mais sobre quais profissões, negócios e serviços podem mudar no Pará com a expansão dessa tecnologia. A resposta envolve educação, indústria, comércio, turismo, meio ambiente, serviços públicos e até atividades relacionadas à bioeconomia amazônica.
Por que o IFPA está discutindo inteligência artificial em Belém?
O encontro programado pelo IFPA mostra uma mudança importante na forma como a inteligência artificial é tratada na educação profissional. A discussão não ficará restrita à programação de computadores ou à criação de modelos tecnológicos, porque a própria instituição informa que a programação abordará aplicações da IA na solução de problemas e sua utilização nos setores econômicos paraenses. Também serão discutidos riscos e aspectos legais relacionados ao emprego da tecnologia em instituições federais, aproximando a formação acadêmica das situações que estudantes poderão encontrar no mercado de trabalho. Confira a programação divulgada pelo IFPA.
A escolha do tema também acompanha uma necessidade nacional de ampliar a capacitação. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê investimentos de R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028 e coloca a formação e a requalificação de trabalhadores entre seus cinco eixos estruturantes. O plano pretende desenvolver infraestrutura, ampliar a capacitação, incentivar aplicações empresariais e melhorar serviços públicos, mas também estabelece preocupações com segurança, direitos individuais, inclusão e proteção do trabalho. Para o Pará, isso significa que a formação de mão de obra deixa de ser um assunto exclusivamente acadêmico e passa a ter relação direta com a capacidade do estado de atrair investimentos, criar soluções locais e aproveitar oportunidades econômicas ligadas à transformação digital.
Essa questão ganha relevância em Belém porque a cidade concentra universidades, institutos federais, empresas, startups e instituições ligadas ao ecossistema de inovação amazônico. O Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, por exemplo, mantém uma agenda relacionada à inovação científica e tecnológica, enquanto a UFPA também possui iniciativas voltadas à integração entre pesquisa, tecnologia e desenvolvimento regional. O calendário de eventos da UFPA registra, inclusive, atividades relacionadas à inovação e à ciência aplicada no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, reforçando o papel da capital como polo de produção e circulação de conhecimento tecnológico.
Quais áreas do Pará podem ser mais impactadas pela IA?
A inteligência artificial pode ganhar aplicações em setores que já são fundamentais para a economia paraense. Na mineração, por exemplo, sistemas de análise de dados podem auxiliar na identificação de padrões, manutenção de equipamentos, planejamento operacional e monitoramento de processos. No agronegócio, ferramentas digitais podem apoiar análise de produtividade, previsão e gerenciamento de recursos, enquanto na pesca e na atividade florestal tecnologias de processamento de dados podem contribuir para monitoramento e tomada de decisão. Isso não significa que a IA substituirá automaticamente trabalhadores dessas áreas, mas indica que determinadas funções poderão exigir domínio maior de dados, automação e ferramentas digitais.
Na Amazônia, existe ainda uma dimensão particularmente importante: o uso da tecnologia precisa considerar as características ambientais e sociais do território. O próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação relaciona a transformação digital a áreas como meio ambiente, agricultura, saúde, turismo, indústria e cidades, mostrando que a tecnologia pode ser aplicada a diferentes problemas públicos e econômicos. Para o Pará, isso abre espaço para soluções capazes de trabalhar com grandes volumes de informações sobre rios, florestas, produção, mobilidade, saúde e biodiversidade, desde que os dados utilizados sejam confiáveis e que os sistemas sejam desenvolvidos com critérios de segurança e responsabilidade.
O setor de serviços também tende a sentir essa transformação. Pequenas empresas de Belém podem utilizar IA para organizar informações, produzir conteúdos, atender clientes, analisar documentos ou automatizar tarefas administrativas, enquanto profissionais podem usar essas ferramentas para aumentar produtividade. O risco está em acreditar que simplesmente contratar uma ferramenta de IA resolverá problemas de gestão ou garantirá vantagem competitiva. O Governo Digital mostra que até no setor público a adoção responsável depende de governança: dados oficiais apontam 182 soluções de IA em operação em órgãos públicos e 41 órgãos com diretrizes próprias de IA, além de iniciativas para ampliar capacitação, avaliação de riscos e práticas éticas.
Para o trabalhador paraense, portanto, a principal mudança pode estar menos na profissão desaparecer e mais na maneira como determinadas atividades serão realizadas. Um profissional de comunicação, administração, engenharia, saúde, comércio ou turismo, por exemplo, pode passar a utilizar ferramentas de IA como parte da rotina sem necessariamente deixar de exercer sua atividade. O diferencial tende a estar na capacidade de avaliar resultados, corrigir erros, proteger informações e transformar a tecnologia em uma ferramenta útil para resolver problemas reais.
O que estudantes e profissionais de Belém precisam aprender agora?
O avanço da IA aumenta a importância de uma formação que combine conhecimento técnico e capacidade crítica. Saber escrever bons comandos para uma ferramenta generativa pode ser útil, mas não substitui conhecimentos de matemática, comunicação, gestão, programação, estatística, segurança da informação ou domínio específico de uma profissão. Uma pessoa que conhece profundamente seu setor consegue identificar quando uma resposta produzida por IA está errada, incompleta ou inadequada, enquanto alguém que apenas utiliza a ferramenta sem compreender o assunto fica mais vulnerável a erros.
O próprio PBIA coloca a capacitação profissional entre suas prioridades e prevê ações de qualificação e requalificação em inteligência artificial. O documento oficial aponta a necessidade de aumentar a oferta de profissionais preparados e prevê iniciativas voltadas à educação, ao trabalho e à formação de especialistas. O plano completo do MCTI também estabelece metas específicas de capacitação e projetos-piloto, indicando que a formação será uma das bases para ampliar o uso econômico da tecnologia.
Em Belém, a realização do encontro do IFPA tem justamente essa função de aproximar o debate tecnológico da realidade profissional do estado. O evento está previsto para 17 de setembro, das 9h às 12h, no Auditório da Biblioteca do Campus Belém, com vagas destinadas a estudantes e docentes. A programação inclui não apenas oportunidades, mas também riscos e questões legais, aspecto relevante porque o uso de IA envolve proteção de dados, propriedade intelectual, confiabilidade das informações e responsabilidade sobre decisões automatizadas. As informações oficiais sobre o encontro podem ser consultadas no IFPA.
Para empresas paraenses, a mensagem também é direta: a adoção da IA precisa estar acompanhada de planejamento. Não basta comprar ferramentas ou liberar aplicativos para funcionários; é necessário definir quais dados podem ser utilizados, quais tarefas podem ser automatizadas, quem revisará os resultados e quais informações não devem ser compartilhadas com sistemas externos. Essa preocupação acompanha a própria política federal, que prevê governança, avaliação de riscos e ética como componentes da expansão da inteligência artificial no setor público.
A discussão que chega ao IFPA, portanto, não é apenas sobre uma tecnologia que está ganhando popularidade. Ela envolve a capacidade do Pará de formar profissionais preparados para um mercado cada vez mais digital e, ao mesmo tempo, desenvolver soluções adequadas às necessidades amazônicas. Para Belém, isso pode representar oportunidades em educação, serviços, indústria, turismo, ciência, meio ambiente e empreendedorismo, especialmente se universidades, institutos, empresas e poder público conseguirem trabalhar de forma integrada. O desafio será garantir que a inovação não fique concentrada em poucos setores, mas contribua para ampliar oportunidades e resolver problemas concretos da população.
A inteligência artificial já entrou na agenda de formação profissional do Pará, e o encontro anunciado pelo IFPA é um sinal dessa mudança. Para estudantes e trabalhadores de Belém, acompanhar esse movimento pode ser importante não apenas para aprender a utilizar novas ferramentas, mas para entender como elas estão transformando profissões e negócios. Para empresas e instituições públicas, o desafio é combinar produtividade com segurança, transparência e responsabilidade. E para o estado, a oportunidade está em desenvolver uma inteligência artificial conectada à realidade amazônica, capaz de contribuir para economia, ciência, serviços públicos e conservação ambiental sem deixar de lado a qualificação das pessoas que estarão por trás dessas transformações.
